Você sabe desejar ou apenas segue a moda dos desejos?

Sísifo foi condenado a, eternamente, levar uma pedra até o alto da montanha e vê-la rolar até o chão.

Quem foi Sísifo?

Na mitologia grega, Sísifo era considerado o mais astuto de todos os mortais, mestre da malícia e da felicidade. Mestre de uma felicidade esfuziante, esperta, constituída à custa do descumprimento de regras e acordos. Uma malandragem antiga.
Em um momento de grande orgulho de sua astúcia em tangenciar acordos, acabou sendo descoberto.

Sísifo, então, foi condenado à repetição de algo desprovido de sentido por toda a eternidade. Um castigo escolhido pelos Deuses por ser considerado o pior de todos, inclusive pior do que a morte.

Com maior ou menor liberdade que a persona Sísifo as nossas repetições vão desenhando o nosso cotidiano, fato este que não significa problema algum. O cotidiano é realmente feito de atitudes que se repetem.

A questão em análise está além da repetição de um inocente cotidiano, mas no seu condicionamento sem reflexão.

No condicionamento do que está por trás destas ações.

No condicionamento coletivo dos DESEJOS.

Observem que assim como o mesmo desejo de TER se repete entre as pessoas, o desejo de SER também se repete.
Desejo de serem iguais.

Desejo de realizar o mesmo movimento do coletivo, gerando segurança e pertencimento e também terceirizando a responsabilidade pela reflexão que produziria maior discernimento sobre as trilhas a serem experimentadas.

Não colocando compromisso com a reflexão, terceirizamos a decisão a responsabilidade pelos seus resultados.
Um ciclo repetido coletivamente e que pouco o percebemos. Ele enfraquece nossa potência de sermos autênticos, pois massifica nossos desejos.

E é dessa forma que nos engajamos nos modismos. Não me refiro somente às modas da estética. Refiro-me ao modismo das profissões, dos métodos de gestão, das frases conceituais. Modismo, como movimento coletivo de uma época, que esvazia o sentimento de responsabilidade pela produção do cenário desejado. Esvaziados, nos colocamos no status de seguidores, mesmo sem termos clareza do que seguimos.

Assim é o movimento desprovido da real diferenciação.

Gera angústia, muita angústia, pois em algum lugar interno coabitam o conforto e o desconforto de “ser multidão”.

No íntimo existe um potencial imenso de desejo de identidade.

Desejo de potência de VIDA.

Desejo de ter desejos próprios.

Desejo de desejar, discernir e realizar.

A potência acomoda-se gradativamente ao tamanho que lhe é concedido. E este potencial empobrecido passa a conviver com seus iguais – todos empobrecidos.
Por fora, tudo controlado.
Por dentro, convive-se silenciosamente com essa adaptação, enfrentando desconfortos que se manifestam no corpo e nas emoções.

Mas a vida segue. Ela é correria – É Chronos.

E seguimos na multidão para levarmos nossas pedras lá no alto, afinal a multidão leva. E leva todos os dias.

Quais as pedras insistimos em levar e levar… ao alto da montanha, pois assim pertencemos ao nosso contexto?

Faz sentido manter esse movimento? Por favor, é preciso perguntar.

É preciso responder.

A coisa é complexa mesmo. Edgar Morin nos salva lembrando-nos que a palavra Complexo vem do latim – Complexus, significando tecido em conjunto, intrincado, rede de causas e efeitos que se misturam caracterizando um tecido aparentemente único. Complexo não significa Complicado. Morin no salvou!
Então não vamos complicar.

Entender o fundamento dos nossos desejos e do quanto podemos ser dominados por eles, é compreender a mistura fina entre fatores culturais e emocionais. E aqui mora um probleminha, pois para conseguirmos a compreensão mais profunda sobre os desejos precisamos d i s t a n c i a r, sair do “status multidão”. Precisamos sair dessa cama tão quentinha.

É no templo interno, um lugar íntimo e além da superficialidade do viés da racionalidade pura ou da emoção pura.

A reflexão profunda é existencial e esta sim, promove saltos. Saltos, insights que reverberam inclusive no corpo.
Rubem Alves nos ilumina lembrando que quando tomamos consciência profunda de algo que nos é caro, até o corpo reage. Agita-se. Como se quisesse dar um salto a frente. Mente-corpo-emoções reagem em um único movimento.

São momentos raros, mas não precisam ser tão raros assim.

As pedras que rolam também simbolizam nossa procrastinação, ou seja, o adiamento de decisões que impactariam nos desejos do nosso Eu Autêntico.

A procrastinação acumula tarefas, e mais, acumula padrões de pensamentos e emoções geradores de um círculo de frustrações. Quanto mais enfraquecidos; mais multidão nos tornamos.

Enfim, precisamos de potência para realizar nossos desejos.

Em especial, precisamos de potência interna para sabermos discernir o que nosso ser mais íntimo deseja.

E fica a pergunta: você está sabendo desejar ou apenas seguindo a moda dos desejos?

 

Andréa Ribas

Mentora de executivos, especialista em gestão organizacional e desenvolvimento humano.

Fundadora da Estação Oito – a Estação da performance com saúde mental.

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Resenha inspirada em Nietzsche, Camus, Edgar Morin, Rubem Alves, Susan Andrews, na mitologia grega e na experiência dos meus clientes.

Muito grata a toda essa gente!